Aos 33 anos, Chiquinho, ex-jogador do Internacional, decidiu encerrar a carreira. Em carta aberta para a imprensa, o agora ex-jogador contou um pouco da sua trajetória e revelou que quer seguir ajudando outras pessoas. Aqui a carta completa:

Caros amigos, meu nome é Paulo Francisco da Silva Paz, mas
certamente vocês me conhecem mais como Chiquinho, lateral esquerdo do
Internacional nos anos 2000. Minha história dentro do futebol no Sport Club
Internacional se iniciou no ano de 1996, quando fui realizar minha primeira peneira,
na qual acabei não passando. Muitos acreditam que o futebol é só mil maravilhas,
mas não é. Retornei no ano seguinte, mais preparado e com mais confiança para
realizar uma nova peneira. Mais uma vez, não fui selecionado. Então, já com certa
bagagem, em 1998, entrei efetivamente para a equipe Sub-15 do Inter. Essa nova
fase foi repleta de dúvidas, pois foi muito difícil para mim, como adolescente, deixar
o conforto da minha casa e os braços da minha família em troca de um sonho que eu
não sabia se se tornaria real. Mas eu escolhi o futebol, esse era meu sonho. Eu queria
me tornar um atleta profissional, e isso requer muito esforço e dedicação. Você tem
que mostrar a todo momento que é capaz e tem condições de permanecer em um
altíssimo nível. A concorrência com outros atletas sempre foi muito grande e as
cobranças e o profissionalismo se tornavam cada vez maiores. Até que, aos 18 anos,
tive minha primeira experiência na equipe principal do time: fui chamado para
compor o elenco em um treinamento e, então, pude jogar ao lado de grandes
referências do futebol brasileiro.
Depois de um período de muito treino, amistosos e experiência, tive minha primeira
grande decepção no futebol: fui informado que retornaria a equipe Sub-20 do Inter.
Naquele momento passei a me questionar quanto ao meu desempenho como atleta e
me deparei com a incerteza do meu futuro como jogador de futebol. A decepção logo
virou felicidade quando, alguns meses depois, com apenas 19 anos, participei do meu
primeiro jogo oficial como profissional do Inter em 2002. Foi um momento ímpar na
minha vida. O sonho estava sendo realizado depois de muito esforço, dedicação e
principalmente com muita fé em Deus. Cobrança e responsabilidade se tornariam
parte do cotidiano. Aprendi, cresci e também ensinei.
No ano seguinte, me deparei com uma situação que traria
incertezas e mais dúvidas em relação à minha vida pessoal e profissional: fui
diagnosticado com arterite, uma doença rara neurológica de interrupção de uma
artéria cerebral. Fiquei impossibilitado de jogar por tempo indeterminado. Muitos
exames, médicos e diagnósticos nada positivos em relação ao meu retorno ao futebol.
Até que recebo a infortuna notícia de que ficaria inválido. Médicos me diziam que eu
deveria estar feliz por não estar em um estado vegetativo. A minha luta era pela vida
nesse momento, não mais por jogar futebol. O apoio incondicional da minha família
foi essencial para me manter forte. Chorei muito. Segui lutando sempre, e tive muita,
muita fé em Deus.
Depois de quase um ano fazendo exames e tratamentos, minha doença havia
regredido e eu poderia retornar ao futebol. No meu primeiro treino após o retorno
senti uma felicidade sem fim. Voltar a fazer o que se ama é uma sensação
indescritível. Me senti útil novamente e animado para levar adiante meu sonho de
fazer história como um atleta profissional no futebol.
Ao final de 2003, oficializei meu retorno ao futebol em uma partida que significou
muito para mim, pois tive a confirmação de que estava preparado para tudo que o
futebol viria a trazer: profissionalismo, cobrança e principalmente títulos.
Em 2004, tive meu melhor ano técnico como atleta profissional do Inter. Muitas
partidas, excelentes jogos, títulos, reconhecimento pelo trabalho. Ganhei até o apelido
de “Xodó” pelos torcedores.
Os anos seguintes foram de muito aprendizado: lugares, culturas e línguas
diferentes, crescimento como cidadão. Tornei-me pai de família. Tive a oportunidade
de atuar em outros grandes clubes. Continuei correndo, segui lutando, errei, acertei e
principalmente aprendi muito.
Nossa vida é um crescimento diário. Por onde passamos, deixamos sempre um
legado. Ajudei muita gente e também fui ajudado. Foram vinte anos dedicados ao
futebol dentro do campo; destes, quinze como profissional. E é com esta imensa
alegria e realização que tenho o prazer de encerrar o ciclo dentro das quatro linhas.
Porém, outro ciclo se inicia.
O esporte tem um poder muito grande na formação de crianças e jovens. Acredito que
projetos humanitários no Brasil e no mundo, tendo o futebol como base, poderão
ajudar muito na educação e na formação das novas gerações, assim como no auxílio
a atletas que tenham potencial para tornarem-se profissionais. Por toda experiência
e dificuldade que passei, tentarei ajudar e mostrar os melhores caminhos para se
aproveitar as oportunidades profissionais que virão pela frente.
“Meu sincero agradecimento a todos que fizeram parte desta linda
jornada. Nesse momento, quero dizer que o futebol está apenas
começando para mim fora das quatro linhas e quero fazer com
que as pessoas, assim como eu, vençam com o esporte”.

ChiQuinho10 #não desista